Hermeto X Tom Zé: precisa disso?
Hermeto Pascoal e Tom Zé tem praticamente a mesma idade, nasceram em 1936 e são nordestinos que se destacaram como dois dos maiores criadores brasileiros. Ambos fazem shows pelo mundo afora e são reconhecidos pelo público e pela crítica especializada. Ninguém questiona a contribuição deles para a cultura brasileira. Agora, completamente desnecessário, grosseiro e deselegante da parte do Hermeto desmerecer o trabalho do Tom Zé como fez na entrevista dada ontem para a Carta Maior. Demonstra falta de respeito e preconceito com um universo musical diferente do dele.
Apesar de o próprio Tom Zé reconhecer que não é músico, mesmo tendo se formado em música na Universidade Federal da Bahia onde estudou contraponto, harmonia e história da música erudita contemporânea com professores como Ernst Widmer, Walter Smetak e Hans Joachim Koellreuter, ninguém, nem mesmo o Hermeto, pode negar que ele é um dos compositores mais geniais em atividade hoje no país. Mas entendo que Tom Zé não faz só música, faz canção, que envolve não só música mas poesia. Mais que isso ele é um pensador que usa a canção para se expressar. Longe de ser um virtuose, usa seus recursos - que ele próprio afirma serem seus defeitos - para desenvolver uma forma de composição original; recusa da harmonia funcional em favor do ostinato. Daí a birra de músicos “músicos” como Hermeto, porque ao abandonar as tensões do universo tonal Tom Zé muitas vezes se vale de um único acorde para elaborar uma textura de elementos contrapontísticos. Ora, um acorde só para músicos virtuoses é inadmissível, insuportável!
Mais engraçado é o Hermeto dizer que esse tipo de pessoa “não tem mente”. Mente aqui imagino que deva ser alguma função cerebral responsável por levar estímulos nervosos às pontas dos dedos. Deve ser a mente capaz de decorar e executar escalas em alta velocidade. Sugiro ao Hermeto – e aos músicos instrumentistas xiitas em geral – deixar o instrumento descansar e ler um pouco pra ver se abre mais o ouvido. Que tal o livro do Tom Zé, Tropicalista Lenta Luta?
Segue abaixo trecho da entrevista:
“CM – Tom Zé diz que não existe mais nada de novo para ser criado na música. Vivemos, segundo ele, a era do plagiocombinador. Tudo que nasce de mais novo é combinação de coisas que já existem. O senhor concorda?
Hermeto – Em primeiro lugar, Tom Zé não é músico. Ele tinha é de morrer logo (risos). Não é nada pessoal. É uma coisa construtiva. Agora, a culpa é da imprensa que não tem repórteres especializados. Ele é um grande falante. Mas ele não é músico. Como é que a imprensa considera esse cara músico? Essa história é conversa de quem não cria. É o que você perguntou antes que eu costumo falar. Só se mudam as coisas de lugar. São pessoas que já não têm mente mais. Como é que Deus ia colocar um ser humano na Terra que não pudesse criar. Mas o Tom Zé, como um cara conhecido, tem que respeitar a criatividade dos outros. Ele que fale: eu, Tom Zé, sou assim. Cuidado, meu filho. É melhor tirar o Tom e deixar só Zé. Morre uma árvore e nasce outra. Existe renovação em tudo. Sempre serão outras coisas. Não andamos à procura da criação. No fim, a criação é que nos procura.”
Escrito por Makely às 12h41
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