Diante de tanta bobagem dita pró e contra o desarmamento, um artigo lúcido do meu amigo Pablo Capistrano:
O Homem é bom?
Não amigo leitor, eu não vou falar de Rosseau. Vou contar uma história do Jean Giraud. Não sei se você já ouviu falar dele. Provavelmente, se você gosta de quadrinhos o conhece com o nome de Moebius e sabe que ele produziu, junto com Alejandro Jodorowski uma obra prima chamada: O Incal. Quando eu tinha catorze anos li um quadrinho que, salvo engano, parecia ser do Jean Giraud chamado: "O Homem é bom?". A situação era a seguinte, um astronauta se via perdido num planeta inóspito perseguido por criaturas alienígenas. Ele corria a história toda tentando fugir dos seres estranhos. Num determinado momento se via acuado, sem escapatória possível. Então, uma das criaturas se aproxima dele e schllachhhhttt.... lhe arranca a orelha. O alienígena leva a orelha à boca e começa a comê-la. Um silêncio constrangedor toma conta da horda de alienígenas até que a criatura faz uma careta horrenda e cospe, enojado, a orelha humana no chão. Depois ele diz algo incompreensível na sua linguagem de alienígena e a horda se retira frustrada. Moral da história? O homem não é bom. Metáforas gastronômicas à parte, essa discussão sobre a dicotomia faroeste que toma conta da sociedade brasileira (bandidos contra cidadãos de bem) é um dos sintomas mais curiosos do tipo de bobeira cerebral que leva a nossa espécie ao estado de pasmaceira e decadência na qual ela se encontra. Acreditar que o bem é um estado de espírito, um dado substancial da constituição de alguém, que o bem é genético, morfológico é um erro de juízo escandaloso. O bem é um hábito, uma prática, um conjunto de atitudes, não um estado de espírito, um traço psicológico ou um detalhe da natureza humana. Li numa revista de circulação nacional (que não gosto de dizer o nome para não dar azar) a seguinte pérola do jornalismo brasileiro: ?Se vencer o SIM, ele apenas vai desequilibrar ainda mais o balanço de forças entre as PESSOAS COMUNS e os BANDIDOS ? a favor dos bandidos?. Me senti num filme de Bruce Willis. Quantos tipos de pessoas existem? Que tipo de entidade é um bandido? Será que ele é um gnomo? Um elfo? Um demônio da floresta ou um saci? Não há nada de substancial que diferencie um bandido de um cidadão de bem a não ser o fato de que o bandido cometeu um, dois, três ou dez mil atos ilícitos. A diferença é acidental.
O cidadão de bem (que não traz, marcado no seu rosto o selo de qualidade: "pessoas do bem") só é cidadão de bem enquanto não age como um canalha, mas nada vai impedir, que a sua canalhice potencial, que convive de mãos dadas com sua santidade também potencial, produto da mesma indefinição ontológica que junta seres humanos à anjos e bestas selvagens, ecloda.
Eu não acredito no cidadão de bem. Eu desconfio do cidadão de bem como desconfio do bandido porque não há fronteiras definidas que separem os homens. Não há classe social, religião, preferência futebolística, raça, sexo, que estabeleça um abismo entre os que tomam atitudes violentas e injustificadas e os que são os mansos cordeiros do não matar. Transitamos entre os dois mundos. Nos misturamos, porque misturados e indefinidos fomos criados. Somos bons, às vezes, e maus, às vezes. Somos santos e canalhas, limpos e sebosos, e essa é a grande majestade do homem, sua grande complexidade e seu mistério. Eu não vivo num filme de Hollywood. Eu não moro em Gothan City nem em Metrópoles para saber que o comissário Gordon é do Bem e o Lex Luthor é do mal. Eu vivo num mundo real no qual a santidade e o pecado são ingredientes do mesmo molho de pimenta da vida. Um mundo no qual pais de família viram assassinos na mesma velocidade com que esquecem de controlar suas próprias pulsões.
Se vamos discutir a sério o referendo da proibição da venda de armas temos que primeiro tentar ajustar melhor os conceitos para não votarmos com o intestino grosso ao invés do cérebro.
Pablo Capistrano
http://www.pablocapistrano.com.br/
Escrito por Makely às 20h28
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