O que você estudou na escola?
Acabou há algumas horas a primeira reunião da recém-criada Câmara Setorial de Música. O tema principal foi a re-inclusão do ensino musical nas escolas. Nem todos sabem que o currículo escolar no país sofreu uma mudança estrutural profunda durante o período do regime militar. Saímos de uma formação humanista, herança de nossa tradição européia, com disciplinas como filosofia, sociologia, latim, francês, música e artes plásticas nas escolas, para uma formação tecnicista, com a carga horária e conseqüentemente a importância de disciplinas como matemática, química e física multiplicadas, além das indefectíveis disciplinas como OSPB e Moral e Cívica, e das insossas aulas de Literatura e Educação Artística, que ajudaram a formar milhões de técnicos e engenheiros, aptos a cumprir o projeto desenvolvimentista dos militares, refletir pouco e questionar menos ainda. Não sou da área de formação, mas acompanhei com curiosidade a reinclusão da disciplina de filosofia no currículo escolar há alguns anos. Como eu suspeitava, isolada dentro de um currículo com ênfase nas ciências exatas e biológicas, o grau de rejeição da disciplina entre os alunos em geral é altíssimo. O despreparo dos professores também é assustador. Saídos das faculdades de ciências humanas, eles não tem a menor idéia de como inserir a reflexão filosófica na vida desses adolescentes da quarta geração “TV full time”, internet e jogos em rede. Tenho receio de que o ensino da música se transforme em algo assim.
Em Cuba por exemplo, há testes de aptidão na primeira escola. Lá quem tem aptidão pra música (não estamos falando de vocação e muito menos de dom) é incentivado desde tenra idade, e não precisa perder tempo com equações algébricas e cálculos estequiométricos durante seu período de formação. Controverso? A formação cultural de qualquer cubano é muito mais densa que a média geral dos brasileiros. Eles conhecem melhor nossa literatura, por exemplo, que qualquer estudante secundarista. Nossos alunos saem do ensino secundário sem ter lido Machado de Assis, sem ter ouvido Villa-Lobos, sem ter visto qualquer filme do Glauber Rocha, sem nunca ter ido ao teatro. Portanto, acho ingênuo pensar que incluir o ensino de música na escola pura e simplesmente, sem toda uma reformulação do currículo escolar - e não estou falando necessariamente em retomar ideais humanistas da primeira metade do século passado – vai aumentar a bagagem cultural de nossos alunos. Acrescente-se a isso o fato de que no Brasil a cultura é vista como puro e simples entretenimento. Não sou pessimista, mas acho que a briga é muito maior.
Que fique claro, o que eu quero dizer com relação à aptidão é relativo ao grau de especialização opcional em determinadas disciplinas. Cada um deve optar pela especialização naquelas disciplinas para as quais se sente mais apto. Acho que qualquer aluno deve ter noções básicas de matemática, física, química, biologia, assim como história, português, geografia, filosofia, sociologia, música, literatura, artes pláticas, etc... Acontece que saímos da escola com uma bagagem teórica de conhecimento nas disciplinas exatas - essa “intenção curricular”, se não corresponde à realidade, pode ser visualizada na carga horária pesada dedicada a tais disciplinas – que não tem equivalência nas disciplinas da área de humanas ou artes. Em matemática por exemplo, de acordo com o currículo obrigatório, nossos alunos deveriam sair do segundo grau dominando funções logarítmicas e exponenciais. Fazendo paralelos um tanto arbitrários, - já que isso exigiria um estudo mais aprofundado - mas necessários para efeito de argumentação, acredito que para uma equivalência em termos musicais, esses mesmos alunos deveriam sair do segundo grau dominando contraponto e polifonia. Se estou me fazendo entender, vocês devem ter percebido que quero aqui chamar atenção para o fato de que há uma exigência de especialização absurda em algumas áreas que ganharam status e poder nas últimas décadas em detrimento de outras. Ora, funções logarítmicas e exponenciais aprendidas no segundo grau serão muito úteis para os futuros engenheiros, talvez para economistas, mas uma dor de cabeça para médicos, historiadores e músicos, que pouco ou nunca farão uso de tal conhecimento. Ademais, ninguém pode ser considerado ignorante por não saber logaritmo e exponencial. Da mesma forma, conhecimentos aprofundados de contraponto e polifonia serão de grande utilidade para futuros instrumentistas, compositores e regentes. Veja bem, acho que ao básico todos devem ter acesso, ou seja – voltando às equivalências arbitrárias – operações matemáticas básicas, geometria, funções e derivadas equivaleriam a noções de ritmo, melodia e harmonia. Assim como noções básicas de mecânica, ótica e termodinâmica em física equivaleriam a conhecimentos literários suficientes para que o aluno identifique figuras de linguagem como metáforas e metonímias, identifique escolas e movimentos além de ter lido uma bibliografia razoável. Isso como básico e bem fundamentado, o resto seria especialização de acordo com aptidões e interesses pessoais. E não tenho dúvidas que com a re-inclusão do ensino musical nas escolas o aprendizado de matemática por exemplo, tende a melhorar, mesmo o de literatura.
Penso que toda essa discussão deva ser ampliada para a sociedade de forma a começarmos , ainda que muito pontualmente, reestruturar realmente o currículo escolar e garantir às nossas crianças o ensino não só de música, mas de todas aquelas disciplinas fundamentais a uma boa formação humana.
Escrito por Makely às 19h13
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