O Inferno dos Garotos-propaganda
Garotos-propaganda de cerveja e de banco estão entre o tipo de gente que merece meu desprezo mais sincero. Coloco-os ali no oitavo círculo infernal de Dante, abaixo somente dos corruptos e dos tiranos. Não que eu veja alguma virtude em garotos-propaganda de outros produtos ou instituições, absolutamente, e nem causas nobres me comovem a ponto de amenizar minha ojeriza ao artifício publicitário espúrio de transferir o prestígio, a simpatia ou o respeito de uma pessoa para um sabonete ou uma operadora de telefonia móvel. A questão dos bancos e das cervejarias é mais aguda porque tangencia outros pontos cruciais das esferas política, econômica e social do país. Senão vejamos: o Produto Interno Bruto (PIB) nacional cresceu em 2004 cerca de 5 %. Sabemos que esse crescimento não é sinônimo de distribuição de renda, mas qualquer retomada de crescimento significa que, grosso modo, produziu-se mais no país do que em relação aos anos anteriores. Os bancos todavia, sem produzir um único alfinete, tiveram lucros de 22% em média, com alguns alcançando 32% de crescimento em relação ao ano anterior. Não precisa ser analista para entender que os bancos lucram assim devido às tarifas cobradas pelos serviços e os juros, que estão entre os mais altos do mundo, chegando a 18% em 2004. Só para se ter uma idéia do que isso representa, cerca de um terço da renda dos brasileiros é gasta com juros. Os menos favorecidos, como não podia deixar de ser, gastam mais com juros que com moradia e alimentos e as taxas de juros dos cheques especiais chegam ao absurdo de 160% ao ano! O curioso é que os garotos-propaganda dessas instituições tão sólidas e lucrativas quanto inescrupulosas, por sua vez, são pessoas que inspiram confiança, seguras de si, felizes da vida, bem-sucedidas. Não falo só dos atores anônimos, que buscam ali um complemento ao orçamento parco de suas carreiras dramáticas fracassadas, falo principalmente de personas públicas como Marília Gabriela, Miguel Falabella, Regina Duarte, Débora Bloch, Elisa Lucinda e outros “clientes especiais” com “acesso direto” ao diretor do Banco Central para consultas de investimento pessoal e outros favores baixos. Sempre me perguntei porque eles se prestam a isso: será que pelo dinheiro ou pela possibilidade de maior exposição na mídia? Talvez pelos dois.
O mundo não precisa de bancos. Poucas pessoas sabem o que são as Cooperativas de Crédito Comunitário. Pois elas podem ser uma alternativa viável e mais humana que os bancos. Comuns na Europa, surgiram no Brasil no início do século passado mas, durante a ditadura Vargas, foram obrigadas a se retrair devido a uma série de restrições impostas por pressão dos bancos, que viram nelas ameaças aos lucros do seu esquema tradicional. Durante a ditadura militar essas cooperativas foram proibidas e permanecem assim até hoje. Não é também segredo para ninguém a relação espúria do poder econômico com os regimes ditatoriais. Agora a pergunta: será que algum desses atores globais se tornaria garoto-propaganda de uma Cooperativa de Crédito Comunitário? Creio que sim, desde que sejam bem pagos e que tenham visibilidade.
A questão das cervejarias é um pouco mais delicada. Primeiro porque o assunto arrisca deslanchar para o conservadorismo, depois porque esta parece ser uma “questão passional”. Por isso não vou usar aqui o argumento mais comum, os dados estatísticos, que mostram que no Brasil, 90% das internações em hospitais psiquiátricos ocorrem por causa do álcool, que o alcoolismo é terceira doença que mais mata no mundo, que 70% dos acidentes de trânsito no país com vítimas fatais envolvem motoristas ou pedestres alcoolizados, simplesmente porque de acordo com essas mesmas estatísticas o álcool ainda é, contudo, a droga preferida por quase 70% dos brasileiros. Eu, particularmente, prefiro outras drogas, como a maconha, ilícita mas muito menos nociva. Mas também não estou aqui para fazer apologia da Cannabis. Acho que esse é o ponto: droga-se quem quiser, afinal em todas as sociedades, desde sempre, o homem sempre utilizou alteradores de consciência, seja como fuga, anestésico para a dor, bálsamo para o sofrimento, busca de auto-conhecimento, facilitador de experiências místicas, etc. Em nossa sociedade ainda é assim e, apesar de toda a repressão às chamadas drogas ilícitas, a quantidade, a variedade e o acesso às drogas lícitas é suficiente para manter qualquer careta em estados alterados de consciência permanente sem infringir a lei. O problema me parece ser o fato de que, em nossa sociedade, o uso de drogas – o que em todas as outras sociedades sempre esteve intimamente relacionado às cerimônias rituais, envolvendo todo um aparato psicossocial complexo - ser considerado uma infração e, mais que isso, um ato de fraqueza e ameaça ao bem estar social. Esse jogo hipócrita e milionário de repressão às drogas pesadas manipulado pelas autoridades só serve para retro-alimentar a indústria do tráfico. A questão portanto não é criminalizar o álcool. O problema é divulgar amplamente em toda a mídia supostos benefícios de qualquer droga que seja visando o consumo e o lucro. A coisa assume um caráter mais assustador quando a droga em questão é o álcool e o público alvo são os adolescentes. Essa “classe etária”, com inacreditável poder de consumo e alta suscetibilidade comportamental, é o principal objetivo das grandes campanhas publicitárias da indústria de bebidas, que se utilizam de figuras muito carismáticas, em geral artistas ligados ao universo da música pop, como garotos-propaganda com alto poder de convencimento. Ora, que Zeca Pagodinho tome sua cerveja à vontade, da marca que preferir, desde que não faça disso marketing publicitário. O mesmo vale para o “poeta” Carlinhos Brown, Seu Jorge, Marcelo D2 e todos os outros garotos-propaganda etílicos. Tenho certeza de que nenhum desses, com seu talento e sua história, precisaria associar o nome a uma marca de cerveja para sustentar a carreira. Preferia quando D2 fazia apologia da erva, era menos hipócrita.
Mas o mais irônico de tudo isso talvez sejam as lojas de conveniência dos postos de gasolina, símbolo totêmico da ideologia capitalista e novo habitat de certa juventude bem nascida. Esses adolescentes, que sob o impacto de campanhas publicitárias começa a ingerir álcool cada vez mais cedo, por volta dos 13 anos, encontra nesses locais um oásis; unindo o útil ao agradável, ali eles sacam dinheiro no caixa eletrônico - que vai cobrar tarifas abusivas a serem pagas por seus pais - se abastecem de bebidas alcoólicas, abastecem o carro (também dos pais) e estão prontos para se tornarem números estatísticos.
Escrito por Makely às 13h57
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