Autófago Ilustre
Oswald de Andrade criou o Brasil comtemporâneo. Hoje faz exatamente 50 anos que ele se autodeglutiu. Sem ele não haveria Glauber, Cinema Novo, Oiticica, Concretismo, Teatro Oficina, Zé Celso, Caetano, Tropicália, Chico Sciense, Manguebeat e tantos outros. É de longe o pensador de língua portuguesa mais importante/influênte do século passado. Curioso notar que não foi aceito como professor na Faculdade de Filosofia da USP mas ironicamente, ou devo dizer sintomaticamente, é o pensador mais original que o país jamais produziu. Leia "A Crise da Filosofia Messiânica" e tire suas próprias conclusões. Publico trechos do Manifesto Antropófago!

Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.
Tupi, or not tupi that is the question.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.
Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós.
Só podemos atender ao mundo orecular.
Contra as elites vegetais. Em comunicação com o solo.
Já tínhamos o comunismo. Já tínhamos a língua surrealista. A idade de ouro.
A magia e a vida. Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos, dos bens morais, dos bens dignários. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais.
Não tivemos especulação. Mas tínhamos adivinhação. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. E um sistema social-planetário.
As migrações. A fuga dos estados tediosos. Contra as escleroses urbanas. Contra os Conservatórios e o tédio especulativo.
É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Mas a caraíba não precisava. Porque tinha Guaraci.
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
No matriarcado de Pindorama.
Somos concretistas. As idéias tomam conta, reagem, queimam gente nas praças públicas. Suprimar as idéias e as outras paralisias. Pelos roteiros. Acreditar nos sinais, acreditar nos instrumentos e nas estrelas.
A alegria é a prova dos nove.
OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha." (Revista de Antropofagia, Ano 1, No. 1, maio de 1928.)
Escrito por Makely às 18h28
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