Série Autófagos
Ontem assisti ao mais novo espetáculo do performer Marcelo Gabriel, "Com o Casaco de sua Própria Pele", da série Antropófago. Fico pensando que há hoje no país poucos artistas com a inteligência, a técnica e a coragem dele em atividade. Sozinhos no palco, sem cenário além do próprio corpo e sem aparato outro que a própria arte a serviço da transgressão, só consigo pensar em Denise Stoklos e Tom Zé. Recomendo sem gelo!
Escrito por Makely às 16h55
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Série Trabalhadores do Sebastião Salgado
Escrito por Makely às 20h57
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Depoimento de um Operário
Este artigo foi publicado no Suplemento Literário faz algum tempo mas acho que ele põe na roda algumas questões ainda atuais. Leiam e me desmintam...
Quero aqui dar o meu depoimento, levantar algumas questões e, porventura, suscitar outras. A primeira delas diz respeito ao acesso aos livros. Num país de 30 milhões de semi-analfabetos tal questão diz respeito, portanto, ao mercado editorial, mas, também à política cultural e, principalmente, à política educacional. Dentro de uma estrutura voltada para o utilitarismo mercantilista não admira que a produção poética, essa inutilidade crônica, sobreviva às custas de atos heróicos e solitários de poetas e editores. Em segundo lugar, quero falar de mercado, de estratégia de venda, marketing, etc. Coisas incompatíveis, inconciliáveis: poesia e mercado. Venho aqui, portanto, falar de coisas muito desagradáveis. Peço aos mais sensíveis à arte, aos mais delicados que interrompam imediatamente a leitura. O ponto que pretendo abordar diz respeito à noção que a maior parte das pessoas faz do que seja um poeta numa economia de mercado. Não é algo que se aprenda num curso de letras. O caso é que vivo da minha poesia, com ela pago as contas no fim do mês, fiz dela meu negócio. Não sou poeta de fins de semana, das horas de folga. Dedico meu tempo com exclusividade à poesia como um operário da palavra e vivo da minha produção. Há um tipo de artista que fica horrorizado com este tipo de atitude promíscua, desonrosa. Alguns não admitem sequer vender seu trabalho artístico. Esses geralmente vendem sua força de trabalho e muitas vezes sua alma, mas seu poema não. Juntam um dinheirinho sacrificado, entregam para um editor-amigo e publicam um livro com sua produção poética numa noite de autógrafos para a família. Todos os amigos têm o livro. E só. É o artista que produz para satisfazer o ego. Escreve por hobby, não precisa vender livro de poesia para viver. Por mais cara que saia a aventura o livro será sempre o orçamento extra, no máximo, uma extravagância, nunca um negócio. Sei de gente que lançou quilos de livros nesse esquema e ainda mantém um discurso austero de que sempre sobreviveu à margem do mercado, e tal. Esse, na verdade, nunca esteve à margem, nem tampouco no leito. Mais do que estar ou não no mercado, esse nunca soube da existência real de um mercado de poesia. E, para bem ou para mal, esse mercado é extremamente fragmentado, segmentado. E há várias possibilidades, voluntárias ou não, de rearranjar e fazer interagir os seguimentos. Quando lanço um produto no mercado, preciso pensar no perfil do meu público. Preciso encontrar um seguimento desse mercado para o meu produto. A questão é: onde? Nas livrarias, mas não qualquer uma. A partir da minha experiência passei a acreditar na existência de um público consumidor de poesia suficiente para manter um mercado alternativo. Acredito, inclusive, que uma de minhas funções como poeta é ampliar e mesmo ajudar a formar esse público interessado em poesia. Além do mais, talvez pela própria peculiaridade do produto, o perfil do consumidor de poesia é um tanto quanto diferente do perfil do consumidor comum. Aprendi a identificar e a atingir esse público porque, de certa forma, também sou esse público. Sei exatamente onde encontrar determinados poetas que você não vai encontrar nas prateleiras das grandes livrarias. Há também a competência do consumidor para encontrar e selecionar o que procura. Há também aquele que não publica seu livro por vários motivos e passa o tempo enviando originais para concursos de literatura ou para editores. Eu que não posso ficar dependendo da boa vontade de editores, bancas julgadoras e críticos em geral, e, por outro lado, também não tenho dinheiro guardado para ‘comprar’ um publicação, acabo tendo de optar pela terceira via: fazer o livro por conta própria, fazer com que ele se pague e de quebra ainda fazer com que dê lucro porque também preciso comer. É que não sei, ou não quero, fazer outra coisa, sou poeta e pronto. Assim como em qualquer profissão liberal minha sobrevivência depende da competência do meu trabalho. Isso implica tanto a qualidade do meu verso, por assim dizer, quanto ao acabamento do suporte que vou utilizar para veiculá-lo, por exemplo. Como um profissional da área, vou ter de ter noção de mercado, portanto, saber utilizar programas de editoração, saber fazer uma ascessoria de imprensa, etc. Enfim, subverter o estigma da poesia como inutilidade. Fazê-la vender como banana, alimento para alma, enfeite para estante ou o que seja. O poeta precisa de alimento para o corpo. Precisa de um teto. Precisa de um computador com internet. O poeta é um operário da palavra especializado em explorar os limites do significado. Há toda uma pesquisa. Todo poeta tem seus anos de formação. Cada um na sua Paidéia. Livros são caros no Brasil. Artigo de luxo. Sorte dos herdeiros da tradição oral. Poemas dão trabalho para elaborar. Pouquíssimas vezes um poema surge no primeiro insight na sua forma definitiva. São como as descobertas científicas, precisam ser burilados, reelaborados exaustivamente. Leminski, Maiakóvisky, Pound, João Cabral e uma dezena de outros tantos poetas chegavam a fazer dúzias de versões pra um mesmo poema. Há que se considerar que é possível sim viver de poesia no Brasil, mas não sem se desdobrar. Dou oficinas sobre poesia, escrevo sobre, falo e canto meus poemas em shows e saraus, e não preciso me tornar uma celebridade, freqüentar a mídia oficial, enfim, vivo sem nenhum luxo, mas com certa dignidade, como qualquer trabalhador brasileiro. Quero dar o golpe de misericórdia na idéia romântica do poeta em seu pedestal, em seu claustro introspectivo. Envio um e-mail a jovens poetas. Rilke viveu a maior parte da vida dos favores de seus mecenas, amigos e amantes, princesas e duques que estimavam sua presença e sua poesia. Hoje o poeta tem empresas privadas que, porventura, queiram associar seu nome a um produto, como por exemplo, um livro de poemas. A coisa pode ser um pouco menos desanimadora se o projeto tiver a aprovação numa das leis de incentivo vigentes, já que o atual governo delegou a responsabilidade pelo fomento da arte e da cultura às empresas privadas. Mas não fica só nisso, a distribuição é na marra S/A . Jornal, nem adianta só mandar livro e release. Tem de ir às redações, conversar pessoalmente com o editor de cultura ou o jornalista responsável. Se não sair matéria no jornal, ninguém além da sua família vai saber que você está lançando livro. Dica: leitor de poesia costuma ler jornal. Musicar uns poemas, ou presenteá-los a músicos é um caminho para se chegar ao rádio. Rádio é um meio de divulgação mais eficiente que jornal, que pouca gente lê. Lambe-lambe ou outdoor também é bom, quando houver condições. Em último caso pixe seus poemas nos muros da cidade que também funciona. Promover saraus e shows para falar seus poemas é fundamental. Divulgar em sites também. Isso são só algumas dicas. Cada um se vira como pode.
Escrito por Makely às 20h16
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beijo autófago
quero provar da carne dos meus lábios / e tomar saliva no cálice de minha própria boca / soltar meus caninos sobre meus incisivos / e sorver minha língua nervosa até a última sílaba-gota / quero me comer pela boca
Escrito por Makely às 02h06
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Psiu
Entre os dias 04 e 12 de outubro acontece o XVIII Psiu Poético - Salão Nacional de Poesia, em Montes Claros, sertão mineiro, arregimentado pelo jagunço da poesia Aroldo Pereira, o incansável, que me encomendou para a ocasião o texto abaixo.
Guerrilha Poética
Nos últimos tempos a sociedade vem engendrando um novo tipo de artista, ele produz, atua, dirige, executa, coordena, etc., suas áreas de atuação não se restringem a um campo específico, ele lança mão de várias línguas e linguagens, da música, do teatro, do vídeo, da dança, do texto, indiscriminadamente. Ele mantém uma relação tensa e contraditória com o mercado, com a indústria cultural, ele vive às suas custas, mas ele a sabota. Ele utiliza para isso a tática de guerrilha. Esse guerrilheiro da cultura, ou cultural, não pretende resgatar nada, não tem vocação pra bombeiro, antes incendiário. Quando todos estão querendo lê-lo ele põe fogo em seus próprios livros. Sua atitude é de um suicida que se lança sem medo no abismo do desconhecido. Suas ações são de um estrategista.
Quando todos clamam pela paz no mundo ele declara guerra contra toda hipocrisia. Sua atuação é localizada e ele não pretende mudar o mundo. Seu golpe é forte e preciso. Seu discurso é exato e indecifrável. Sua ação é contundente e imperceptível. Ele é um não-especialista, seu conhecimento é genérico, geral, seu ritmo é frenético, terminal. Seu instrumento é a palavra e seu suporte pode ser o muro, o poste, a vitrine, a tv, o rádio, a tela, o monitor, o palco, o papel.
De todos os cantos esses guerrilheiros se reúnem num outubro vermelho a cada volta do planeta ao redor do sol. Tem sido assim desde o fim dos tempos. Ali eles planejam novos ataques atômicos com o intuito de provocar o kaos com k em todo o continente. Num piscar de olhos, num triscar de lâminas, num travar de línguas, explodem as formas e conteúdos pré-estabelecidos. E calem-se as calúnias, quebrem-se os cânones e ergam-se as colunas de um novo tempo.
Salve todos os guerrilheiros da poesia! Salve Aroldo, salve Mautner, salve Alice, salve Nicolas, salve Chacal, salve Guilherme, salve Augusto, salve Ademir, salve Bráulio, salve Arnaldo, salve Frederico, salve Renato, salve Bruno, salve Capinan, salve Décio, salve Ricardo, salve Maria, salve Manoel, salve ...
Escrito por Makely às 16h47
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Série Autófagos Ilustres

Lautrèamont foi autofágico. Publico aqui uma das ilustrações de Dalí para Os Cantos de Maldoror. A série ficou exposta numa das Bienais em São Paulo, acho que 96, não me lembro. Foi primeiro livro de prosa que me deu um sôco no estômago. Até então eu nunca havia me interessado por nada em prosa, achava tudo chato demais, não conseguia me prender, nunca acabava de ler. Com esse livro eu percebi que podia haver poesia na prosa, poesia porosa, proesia. Nasceu em Montevidéu no século dezenove. Influenciou todos os que vieram depois dele. "Minha poesia consistirá, só, em atacar, por todos os meios, ao homem, esta besta selvagem, e ao Criador, que não devia ter gerado semelhante criatura..."
Trecho dos Cantos traduzido por Cláudio Willer
Escrito por Makely às 00h20
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Auto o quê?
Autófago é aquele que come a si próprio, mastiga sua própria carne, morde seu próprio rabo, como a serpente oróboro. Autofagia é o ritual de auto-alimentação, auto-conhecimento, auto-destruição. Autofágico é o espelho, o labirinto, a grande rede virtual. Enfim, aqui vou falar o que me der vontade!
Escrito por Makely às 23h20
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